2 ago 12

 Na coluna desta semana, recorremos a um exemplo histórico da ciência versus negócios para mostrar por que empreender nem sempre significa inovar

Por Fábio Zugman

 

 

 

 

 

Oi pessoal! Na coluna dessa semana, o leitor Alisson Ribeiro levanta algumas dúvidas sobre empreendedorismo e a vontade de criar algo novo. Em sua questão, ele nos diz que, além de vontade, ele tem tudo para ser um empreendedor, só falta uma ideia. Ele nos diz que tem muita vontade de criar algo que faça seu nome ser reconhecido como o precursor, o inventor, o primeiro no mercado. Apesar disso, acaba descartando todas as ideias que tem, por achar que ela já existe, que ela é simples demais, ou que não vai dar dinheiro.

 
Alisson, apesar de muitas vezes vermos os conceitos de “empreendedorismo” e “inovação” juntos, vou te contar um grande segredo: nem sempre o primeiro a ter uma ideia, seu inventor, é a mesma pessoa ou organização que consegue lucrar com ela.

 

Um bom exemplo é a General Electric, que muitos conhecem pelo logo de GE. Muitas das pessoas que consomem produtos da GE, como lâmpadas e eletrodomésticos, não sabem que, além de ser uma das maiores empresas do mundo, é “filha” direta da pessoa considerada “pai” da eletricidade: Thomas Edison. A empresa foi fundada em 1890, e é uma das 12 empresas originais a fazer parte do famoso índice Dow Jones. Mas estou me desviando…

 

Toda essa história de empresa antiga, inovadora e grandiosa tem uma pegadinha: o projeto original da equipe do Thomas Edison usava a chamada “corrente direta”. Apesar de funcionar, a corrente direta oferecia grandes limitações ao uso. Sem entrar em detalhes técnicos, a energia tinha que ser gerada perto do local onde era consumida, e ela não permitia a flexibilidade de voltagens que temos hoje. Isso encarecia muito o sistema e não permitiria que a energia fosse carregada de um lado a outro, usada para uma diversidade de fins, como é feito hoje.

 

A energia que usamos hoje, que abastece os eletrodomésticos da própria GE, é baseada na chamada “corrente alternada”. Essa tecnologia foi criada pelo croata Nikola Tesla e se mostrou mais barata, flexível e fácil de transportar. Muitos lembram do nome “Tesla” das aulas de física da escola, mas a história do ponto de vista dos negócios é relativamente desconhecida. 

 

Nikolas Tesla chegou a trabalhar no laboratório de Thomas Edison. Na verdade, grande parte das invenções que são atribuídas a Edison eram realizadas por um esforço de “força bruta” de seu laboratório, que chegou a dezenas de pessoas. Edison é famoso por dizer coisas como “Gênio é um por cento de inspiração, noventa e nove por cento de transpiração”. A história oficial só esquece de vez em quando que a transpiração não era só dele. Segundo o que se sabe hoje, Edison era um chefe terrível, do tipo que fazia promessas e tirava o mérito de seus subordinados sem pensar duas vezes.

 

Tesla acusou Edison, entre outras coisas, de lhe dar um calote significativo por seu trabalho e acabou deixando o laboratório. Mais tarde, quando a discussão do uso de corrente alternada contra corrente direta começou a ferver, a empresa de Edison chegou a encenar a execução de animais usando a corrente alternada, para mostrar como a ideia concorrente era perigosa.

 

Na prática, a ideia de Tesla foi vitoriosa por suas vantagens, sua tecnologia e ideias são usadas até hoje. Do ponto de vista financeiro, no entanto, a história muda. Tesla morreu sozinho, endividado e morando de favor em um quarto de hotel. Thomas Edison fundou a GE e é tido como muitos como um grande exemplo de empreendedor e inventor.

 

Eu não estou contando essa história para desacreditar um nome respeitável como Thomas Edison, ou chorar as dores de um pobre cientista. A história, no entanto, é útil para entendermos um ponto central na questão que o Alisson levantou.

 

Repita em voz alta agora, caro leitor: “Empreender não é o mesmo que inovar.” Empreender é a arte e ciência de levantar, organizar e administrar recursos. O objetivo do empreendedor é ter lucro. Isso pode envolver uma inovação, ou não. A inovação, por outro lado, pode ou não dar lucro ao seu inventor. Daria para escrever mais um livro inteiro sobre o assunto, mas o fato é que a história está repleta de casos em que a primeira pessoa a ter uma ideia e colocá-la em prática não é quem lucra com ela. Muitas vezes não é nem quem leva a fama por ela.

 

O que as pesquisas mostram sobre inventores é que essas pessoas geralmente são motivadas pela própria inovação. O prazer está na descoberta, em criar algo novo. Pessoas, e até equipes inovadoras, nem sempre estão preparadas para tirar proveito de seus produtos. É muito comum que seus avanços sirvam de base para outras empresas criarem valor e montarem um negócio. Inventar algo e ganhar dinheiro com esse algo são coisas que exigem habilidades e recursos bem diferentes. De vez em quando encontramos esses elementos em uma só pessoa ou empresa. Em outras vezes, não.

 

Finalmente, caro Alisson, sugiro que você separe suas iniciativas e vontades, e quem sabe até escolha aquela que te faz mais feliz. Se optar por ser empreendedor, pense em um negócio que gere lucro, empregue pessoas e te transforme em um empresário. Se quer optar pela carreira de ‘”inventor”, saiba que, eventualmente, se sua ideia ou produto forem realmente bons, o melhor caminho pode ser vendê-la ou licenciar a uma empresa que tenha organização, habilidades e recursos para colocá-la no mercado. Existem inventores empreendedores, mas esses são casos muito mais raros do que as histórias e biografias nos contam. Você pode tentar fazer tudo sozinho. Mas no mundo real não há nenhum problema em optar por um caminho.

 

E você? Tem alguma dúvida sobre empreendedorismo, criatividade ou inovação? Envie sua pergunta para pergunteaozugman@administradores.com.br

 

 

 

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2 Comentários.

  • Alexandre Neuwert disse:

    É verdade, Edison não pagou o que devia à Tesla, mas as grandes personalidades não precisam de glórias mundanas. Serão recompensados eternamente, nesta ou na outra dimensão, pelo bem que proporcionaram à humanidade.

  • Erick Costa disse:

    Realmente você disse tudo na frase “empreendedor não é aquele que inova”.
    Existem muitos “empreendedores” que com ótimas idéias, não conseguem ganhar dinheiro. Daí a importância de blogs como este e o empreendeblog.com.br que promovem a educação empreendedora e mostram que é preciso mais do que boas idéias.

    Abraços e sucesso com este ótimo blog.



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