24 jan 12

Veja como o mundo militar e o da Administração têm se relacionado ao longo da história

Por Mariana Osorio, MBA AmericaEconomia

 

Duas vezes ao ano 90 estudantes de MBA da Wharton School of Management – a terceira maior escola de negócios do ranking global da AméricaEconomia – viajam a Quantico, um campo de treinamento no estado da Virginia, nos EUA, onde são formados os oficiais da Marinha norte-americana. Em contrapartida, os militares enviam alguns dos seus membros para fazerem um MBA.

A ideia surgiu em 2001, quando um grupo de estudantes da escola se juntou para conversar sobre a falta de aproximação que a escola tinha com a liderança militar. Segundo Preston Cline, diretor associado da Wharton Leadership Ventures, “o professor Mike Useem visitou várias bases militares para falar com seus oficiais. Decidiu que a escola e a United States Marine Corps Officer Candidates School de Quantico poderiam cooperar na área de liderança para obterem benefícios mútuos”.

Uma das lições mais importantes obtidas dos militares, destaca o acadêmico, é seu forte viés prático. “Muitos de nossos estudantes civis vêm da consultoria e são muito bons na criação de consensos, o que torna mais lento o processo de tomada de decisões. Em contrapartida, os militares são formados para decidir e atuar rapidamente. Muitas vezes, os estudantes de MBA se surpreendem quando lhes é pedido que tomem uma decisão com apenas 70% da informação”, afirma.

E o impacto do militar no terreno da administração vai muito mais além disso. Um exemplo é a linguagem que ambos os mundos utilizam para se referirem a coisas muito parecidas. Estratégia, tática, operações, painel, logística e campanha são só alguns exemplos.

O paradigma militar

Segundo Francisco López, reitor da Eafit, de Medellin, a Administração atua sob o paradigma militar. O exército prussiano, no século VXII, tinha como lema converter as massas campesinas em uma máquina de guerra, “que obedeceria de maneira muito disciplinada e que temeria mais ao superior do que ao inimigo”, afirma. Da mesma forma, nas organizações de hoje existe um “importante reconhecimento à autoridade formal e uma discriminação muito grande dos cargos mais baixos”.

López lembra que o management é posterior ao militarismo, inclusive na América Latina. Ele assinalia que os primeiros gerentes, duranto o desenvolvimento industrial na Colômbia, no começo dos anos 20, foram os antigos generais que vinham da Guerra dos Mil Dias (1899-1902). “Eles tinham a atmosfera e a bagagem que os capacitavam para dirigir uma fábrica. Se haviam conduzido batalhões inteiros, por que não poderiam administrar um grupo de funcionários na indústria têxtil? O exército trabalha com uma concepção de trabalho e disciplina muito forte, e de entender as relações de poder e obediência, de subordinação”, afirma.


Da vida para a tropa

Cline destaca que são muitas as habilidades de liderança que seus estudantes podem aprender da experiência militar. “Não mentir, enganar nem roubar, e, sobretudo, nunca deixar para trás um companheiro, são princípios que os militares têm muito arraigados”, afirma. E destaca ainda que, ainda que soe banal, os militares realmente levam a sério esses lemas.

Para o reitor da Incae Business School, Arturo Condo, “eles têm um desenvolvimento e um propósito difícil de replicar sem o componente que é a consciência de que está servindo à pátria. Talvez por isso tenham tanto êxito ao dirigirem algumas organizações”.

“As tropas militares, que estão formadas para pegar em armas e se lançarem contra o inimigo, às vezes até sem terem comido, se baseiam em um senso de responsabilidade, de liderança e vínculos que são muito valiosos para o mercado civil”, afirma Fernando Wilson, professor da faculdade de Artes Liberais da Universidade Adolfo Ibañez. “Por isso que os militares são altamente valorizados no mercado civil para a formação de equipes de trabalho e na conclusão da formação”, explica.

O ex-tentente espanhol Javier Cerón, atualmente professor de informática e desenvolvedor de simuladores de negócios da Fundesem Business School, acredita que um dos maiores ensinamentos que aprendeu na vida militar foi a preparação para enfrentar momentos de pressão.

“Você se torna mais forte para enfrentar situações incômodas e pode reagir mais facilmente. Em meu caso, pelo menos, considero isso um dos meus pontos fortes”, afirma.

E Cline não pode estar mais de acordo com Cerón. “Esta gente, pelo menos a que esteve em combate, poassou por situações reais onde a decisão deve ser tomada rapidamente. Por isso se sabe que eles podem administrar ambientes de estresse e sabem bem a diferença entre um problema real e um imaginário”, assegura.

Já para o general aposentado Ángel Córdova, atual CEO do aeroporto de Guayaquil, as lições mais valiosas que a vida militar lhe deixou foram “a disciplina, a organização e a perseverança para alcançar sempre um objetivo”. E ao que parece tem conseguido lograr êxito em seus objetivos, já que o José Joaquín de Olmedo tem sido premiado em várias ocasiões como um dos melhores aeroportos da América Latina e do mundo.

Para o ex-general, a pessoa que dirige uma organização é vital para o desenvolvimento da empresa, por isso quem está na alta gerência tem que fazer com que os trabalhadores organizem seus esforços. “A liderança militar é transportada para a vida privada. O líder militar sempre busca ser o que dirige a gente que está sob seu comendo, e tem que guiar os esforços da empresa até o bem comum”, afirma.

Apoio da tecnologia e da inovação

Aportes significativos do jundo militar à sociedade civil têm se dado no âmbito da logística, da gestão de projetos e de pessoas, destaca Wilson. “A defesa tem sido a grande propulsora de uma série de aspectos tecnológicos, como a eletrônica, a medicina na Segunda Guerra Mundia e outros processos e formas de fazer as coisas”, explica.

 
“No Chile, já desde os anos 60, se valorizava muitos a ida de militares aposentados para o trabalho em áreas de logística e administração de pessoas, por exemplo. Agora também vão à inovação”, afirma Wilson.

Segundo este cientista político, são muitas as empresas que estavam focadas na Defesa e agora também estão entrando no mercado civil. Entre elas a Vessel Traffic Service (VTS), a NRS e outras, no desenvolvimento de automatização, eletrônica etc., que aproveitam essa capacidade de gestão para reorientá-las ao mercado civil. O serviço de geolocalização GPS, pro exemplo, nasceu como aplicação militar destinada a facilitar o posicionamento militar e naval, e foi miniaturizado para seu uso em terra,

A burocracia mecânica e as debilidades militares

Segundo López, da Eafit, há um tipo organização para a qual os militares são mais importantes. Trata-se das empresas que são burocraticamente mecânicas. Sua característica principal é que a base operativa, “a tropa”, executa operações planejadas por outros, e que por sua vez são controladas pelos mesmos que planejaram. Por exemplo, uma construção de automóveis ou uma fábrica. “Se há muitas instruções, rotinas em exaustivo detalhamento podem ser estandardizadas. Simplesmente um da a ordem para que o outro obedeça de forma disciplinada”, afirma.

“A disciplina, como explica Michael Focault, se entende como a probabilidade de encontrar obediência em um mandato, de maneira que esse cumprimento seja imediato, simples e automático”, explica.

“Nós temos tido professores que vêm de altos cargos militares e se percebe neles o tom militar. Eles esperam que as funções se cumpram de forma imediata”, afirma.

Segundo o acadêmico, essa atitude pode funcionar em burocracias mecânicas, mas é muito difícil que operem em uma burocracia profissional, baseada na pericia, na especialidade e no conhecimento. Nelas, os que executam as ordens são pessoas com alto nível de educação, e que podem impor objeções conscientes às ordens. Por exemplo, em um hospital, “o que decide quanta anestesia aplicar não é nem o diretor nem o cirurgião, sim o anestesista”, afirma. O mesmo acontece em uma agência de publicidade, em um escritório de advogados ou em uma universidade. Os que tomam as decisões são os que estão mais capacitados a fazê-lo.

Fernando Wilson, da Adolfo Ibáñez, concorda com ele, pensa que “a liderança autoritária não dá resultados quando se tem que dirigir uma equipe altamente motivada e de alto nível intelectual, porque simplesmente a pessoa não vai obedecer e a organização não vai funcionar”. Sem dúvida, López destaca que há militares que, por idade e outro tipo de experiências, podem ter estilos muito democráticos e muito participativos, por que sabem que quando não se cria participação, não há compromisso.

Para o general Córdova, a maior debilidade que os militares podem ter na Administração não se adaptarem às regras do mundo privado. “Pode ser que um militar pense que tudo é igual, mas cada empresa deve ter uma maneira diferente de trabalahr. Provavelmente, a Administração do tipo vertical, com a qual estamos acostumados, não é a forma de organização que mais convém a todas as empresas”, afirma.

O círculo de retroalimentação cívico militar

Atualmente, são muitos os militares que estudam um MBA. Nos Estados Unidos são mais de 20 as instituições que contam com pós-graduações na área de Administração especializadas para o mundo militar, segundo a companhia de análises de prevenção Belt. No país, inclusive, muitas empresas têm programas específicos para atrair veteranos de guerra.

A contribuição das escolas de negócios para os militares é que, ao que parece, os torna mais competitivos. Eles já entendem de liderança, de responsabilidade e estão orientados aos objetivos, mas o MBA balanceia essas habilidades com informações práticas, pensameto crítico e um focoem soluções. Mesclara experiência militar com um MBA lhes serve, então, como uma ponte para passarem do militar ao civil.

“Há um círculo virtuoso de influências mútuas no sentido de que o civil oferece conceitos de gestão enquanto os militares contribuem com experiências em áreas específicas deles”, assegura Arturo.

Mas alguns militares que vão a programas de MBA querem seguir trabalhando no mundo militar, e tomam certos conhecimentos das escolas de negócios que lhes podem ser úteis. “Ter uma pós-graduação em Administração, Finanças, Marketing, por exemplo, lhes serve para ver como o mundo civil lhes percebe, como dar informação para uma notícia, como manejar bem a imagem da instituição militar, fazer publicidade, encontrar fontes de financiamento e gerir os orçamentos que o governo de plantão lhes entrega”, afirma López.

Atualmente, são muitas as empresas, em especial as públicas, que têm se desenvolvido sob o comando de militares. Um exemplo é a mineradora de cobre Codelco, do Chile, fundada na ditadura militar, ou – no outro lado do espectro ideológico – a Petroecuador, para cuja direção o presidente Rafael Correa nomeou um militar: o vice-almirante aposentado Manuel Zapater Ramos, que deixou o cargo no início do ano passado. 

MBA AmericaEconomia

 

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Filed under: Administração,negócios

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